"Sim, eu quero saber. Saber para melhor sentir; sentir para melhor saber", Cézanne - Blog pessoal de assuntos variados, Ano V - Cuiabá - MT.

sábado, 8 de abril de 2017

A gêmea plantada e a gêmea menos morta: "A desumanização", de Valter Hugo Mãe

Antônio Rodrigues de Lemos Augusto, jornalista, advogado, professor universitário - Cuiabá-MT

Valter Hugo Mãe é um escritor contemporâneo português, nascido em Angola nos tempos de colônia. O principal livro dele (na minha opinião, claro!) já foi retratado neste blog: "O filho de mil homens" (Clique aqui). "A desumanização" é outro livro conceituado do autor, e que recebeu elogios recentes do historiador Leandro Karnal. O nome já dá uma indicação de que não é um livro para felicidades...

Curiosamente, a história se passa na gélida Islândia, em uma comunidade esquecida mesmo naquele país. É um livro melancólico. Aliás, as obras de Hugo Mãe são, normalmente, melancólicas. Em "A desumanização", há duas irmãs gêmeas: Halla e Sigridur. Uma morre, ainda criança... O livro é o relato do sofrimento daquela que vive, a "menos morta". Ela conta a sua história, a partir da esperança da "irmã plantada" ressurgir.

Minha edição, da Cosac Naify, tem 151 páginas, que debatem solidão, família, sexualidade, preconceito, religiosidade, morte... tudo sob os olhos de uma menina na pré-adolescência, Halla, aquela que sobrevive e que purga a sobrevivência. O único que a entende é um jovem - Einar - que sofreu um forte trauma na infância e que mora com o responsável por cuidar da igreja, em uma comunidade que nem padre tem. São esses dois, tidos como desgraçados por todos, que irão conduzir o leitor.

Pouca coisa dá prazer para Halla: os poucos livros e a poesia do pai, um poeta amador que tenta manter alguma sanidade após a perda da outra filha. São bonitos os diálogos entre Halla e o pai, como também fazem pensar - muito - as lembranças de Halla sobre o que conversava com a irmã. Ao final da obra, o mistério sobre o passado de Einar se revela e Halla toma uma decisão que impressiona...

Algumas frases da obra:

"Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso."

"Achei que o mundo mostrava a beleza, mas só sabia produzir o horror."

"A morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco."

"Os santos aparecem, os demônios assombram."

"O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer."

"Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças."

"E deus era o desconhecido. Cada coisa que se nos revelasse tornava-se humana. Apenas o que nos transcendia poderia ser deus".

"Não espereis que sejam amáveis contigo. A bondade pode não ser uma característica de deus. Pode ser apenas ignorância nossa."

"Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe. Quando for grande, quero ser longe. E eu respondia: eu acho que quero ser professora."

"Descobrir o nome e o significado de deus não compete a ninguém. Repeti: descobrir o nome  e o significado de deus não compete a ninguém. Deve dar-nos medo a necessidade de o entender. Deve dar-nos medo a necessidade de entender deus. Ele é o desconhecido, se por ventura se der a conhecer então é uma falsidade."

"Queria uma palavra alarve, muito gorda, uma que usasse todo o alfabeto e muitas vezes, até não se bastar com letras e sons e exigisse pedras e pedaços de vento, as crinas dos cavalos e a fundura da água, o tamanho da boca de deus, o medo todo e a esperança. Uma palavra alarve que fosse tão feita de tudo que, quando dita, pousasse no chão definitivamente, sem se ir embora para que pudéssemos abraçar. Beijar."

"Algumas coisas, como deus, existiam sem nome. Talvez nós próprios não tivéssemos nome e andássemos iludidos com aquele que usávamos. Talvez nós próprios fôssemos outra coisa que não aquilo que nos habituáramos a pensar ser."

"Talvez a tristeza fosse um modo de envelhecer."

"O tempo também se conta pelos desgostos."

"Talvez a morte seja só uma maneira de simplificar a alma. A morte é a simplificação das almas. Deixa-as libertas dos infinitos pormenores do corpo. Libertas da sua vulnerabilidade. (...) Eu repeti: o corpo suja a alma."

"Os livros eram ladrões. Roubavam-nos dos que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia."

"Os livros. Eram os livros. Diziam-me coisas bonitas e eu sentia que a beleza passava a ser um direito."

"A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (...) Nós não somos mais do que a carne do poema".

"Onde há palavra, há deus. Onde nasce a palavra, nasce deus. Todos os outros lugares são ermos sem dignidade."

"A cabeça dos homens não durava sequer o tempo suficiente para a leitura do nome de deus, que seria um nome infinito. Não era portanto legítimo que divagássemos sobre a sua vontade, ou que nos zangássemos com a sorte."

"Podia ser que ninguém se pusesse mais perto de nós do que os mortos. Quando sentados em cadeiras ou estendidos nas camas, podia ser que estivéssemos simultaneamente no dorso deles. Amparados por eles, por nos quererem bem ou nos quererem o calor que perderam."

"Num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher. A mulher grávida não difere do seu filho senão já tarde. E o filho apenas muito depois se apercebe de algum desajuste entre seu corpo e o que o circunda."

"As mães têm uma sonda que assinala os filhos num mapa emocional muito preciso. Assinala os seus movimentos, o próximo ou distante que estão. Dizia assim. As mães sabem. Como se tivessem um mapa em forma de coração, cheio de pequenas luzes avisando dos ventos, das tempestades, exposto diante dos olhos filtrando tudo. Antes de verem o chão e as paredes da casa, antes de verem o gado e os rostos dos maridos, as mães veem o coração onde mapearam os filhos e a partir do qual ponderam as tempestades."

"A culpa era uma ideia feia que não saberíamos entender. Era mais justo que não caíssemos na tentação de a evocar."

"Talvez a morte fosse inteligência. Consciência absoluta e inteligência. Uma coisa boa. A morte haveria de ser uma coisa boa. Haveria de ser feliz."

"O pior amor é este, o que já é feito de ódio também".

"A morte não dá direito a nada. É a supressão de toda a dignidade."

"Os tolos não vivem por completo."

"Deus certamente bocejaria se assistisse ao espetáculo pequenino das nossas vidas."

"No mapa de deus as coisas aparecem pelo admirável do engenho, a candura, a aventura da inteligência ou da intuição. Eu respondi: ando a pensar que deus não reparou que aqui estamos ou nos mandou para aqui exatamente para não ter de reparar. Não há como aceder ao seu mapa. Somos o inóspito das montanhas. Devemos estar ali como um borrão negro sob o qual não se percebe nada. Talvez deus pense que por aqui passa apenas uma tempestade. Talvez espere que se acalme o tempo para deitar os olhos e conferir a criação."

"O rigor era um conceito ridículo para o espírito, o indecifrável espírito que haveria de transgredir todas as regras e tudo quanto alguém algum dia julgou a aprender e poder ensinar. Dizia que o engenho não se descasava da emoção."

"A beleza pode ser uma tirania."

"Ter coragem de louco não era valentia, era inconsciência, imprudência, uma propensão suicida, a falta de telhas na construção da cabeça."

"Mas a vida não pertencia aos sonhadores, ainda que talhados para o sucesso. A vida era dos que sobravam. Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez se ser feliz."

"Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite."

"Nunca se perde por inteiro um filho. Ele resta sempre como algo que temos a infinita possibilidade de evocar. Evocamo-lo e ele é. (...) Dizemos filho e ele é sempre algo. Nunca regressa ao tempo em que não existia."

"Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder os sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não leem apagam-se do mapa de deus."

"A morte é uma dimensão de deus. Deve ser magnífica."

"Algumas pessoas não mantêm a beleza nem das coisas que só sabem ser belas."

"Não vale de nada a vida se não a jogarmos por inteiro."

"Era como querer construir jaula para uma ideia. As ideias trespassavam todas as grades."

"Somos, não importa que maldade façamos, um corpo benigno. Espera-se de nós algo precioso. E a glória pode ser tão grande quanto a tragédia, mas a morte há de apaziguar tudo e o que nos consumir terá prazer."

"O amor não podia ser um embuste que nos retirasse a grandeza dos sonhos, inclusive dos mais fáceis."

"O meu coração sem visitas perderá a memória e, quando nos separarmos de vez, certamente será mais feliz."

"Tens de perceber que a escuridão é o lugar de deus. Aquilo que não vemos."

"Respirar era o bastante para valer a pena."

"Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas."

Nenhum comentário: